O farol

Partilho convosco, uma história.

Numa pequena aldeia junto ao mar vivia um velho chamado Tomás, responsável pelo farol que orientava os barcos para o porto, mesmo em noites de nevoeiro ou tempestade. Todas as noites ele subia os 120 degraus do farol para acender a luz que guiava os barcos.

Fazia isso há tantos anos que já ninguém se lembrava de quando começara. O velho Tomás morava sozinho, não tinha filhos. A esposa morrera cedo, e os pescadores da aldeia diziam que ele era um homem triste e reservado.

Falava mais com o oceano do que com as pessoas. Certa noite de inverno, uma tempestade enorme caiu sobre a costa. O vento sacudia as janelas, o mar rugia como um animal ferido e a chuva parecia querer afogar o mundo.

Mesmo cansado e com febre, Tomás subiu ao topo do farol para manter a luz acesa, a fim de que nenhum barco se perdesse ou se afundasse. Naquela noite, porém, aconteceu algo estranho: a luz do farol avariou e apagou-se de repente.

Tomás tentou reacendê-la uma vez, duas, dez vezes, mas nada. As mãos tremiam de frio. Pela primeira vez em décadas sentiu medo, pois podia morrer ali sozinho, sem que ninguém se apercebesse, e os barcos podiam naufragar sem a luz do farol.

Foi então que ouviu bater à porta. Quando abriu, encontrou Inês, uma menina da aldeia, encharcada pela chuva e segurando uma pequena lanterna na mão.

— A minha mãe disse que o senhor podia precisar de ajuda, e eu vim trazer esta lanterna — disse a menina, com a chuva a pingar do cabelo e o vento forte a ferir-lhe o inocente rosto.

O velho Tomás suspirou e respondeu:

— Querida menina, achas que uma lanterna tão pequena vai salvar o farol que se apagou e os barcos que estão à deriva?

A menina levantou a luz e respondeu:

— A luz, mesmo pequenina, é sempre bonita. E, se não salvar os barcos, pode salvá-lo a si, que já está idoso e não consegue descer estas 120 escadas sem uma luz para ver onde põe os pés e não cair.

Os dois passaram a madrugada a conversar e a tentar consertar a luz do farol. Depois, começaram a aparecer outras pessoas.

Um pescador trouxe pão para comer. Uma vizinha trouxe cobertores para se agasalharem. Outro homem trouxe ferramentas.

Sem combinar, toda a aldeia apareceu ali, no meio daquela grande tempestade. Ao amanhecer, a luz do farol voltou a brilhar. Tomás olhou pela janela e viu dezenas de barcos seguros no porto.

Nenhum tinha ido ao fundo. Depois olhou para as pessoas à sua volta  cansadas, molhadas, mas vivas  e percebeu algo que nunca entendera em tantos anos de solidão: às vezes, Deus não resolve as avarias e as tempestades da vida, mas manda sempre alguém para ficar connosco enquanto a tempestade não passa e as dificuldades não se resolvem.

Dizia Jesus no Evangelho de hoje: “Não vos deixarei órfãos, estarei sempre convosco. Vou enviar o Espírito Santo, o Consolador.”

Talvez o Espírito Santo seja apenas isto. Esta Inês, esta criança com a lanterna na mão. Talvez o Espírito Santo seja isto: uma luz divina, mesmo que pequena, que pode ajudar-vos. Não vos deixarei sós, não ficareis órfãos.

Vou enviar o Espírito Consolador.

Esta promessa de Jesus, este conforto de Jesus, é verdadeiramente um todo.

Padre Almiro Mendes