Encíclica “Humanidade Magnífica”
O que significa proteger a nossa humanidade? Esta pergunta está no centro da muito aguardada primeira encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana no Tempo da Inteligência Artificial”, publicada a 25 de maio. Seguem-se alguns pontos essenciais a saber sobre esta importante carta papal.
1. O título, em latim, significa “Humanidade Magnífica”
O título vem das palavras iniciais do texto na sua versão latina, como é habitual nas encíclicas papais.
Na tradução inglesa, essas palavras dizem: “A humanidade, criada por Deus em toda a sua grandeza, enfrenta hoje uma escolha decisiva: construir uma nova Torre de Babel ou edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitam juntos.”
Ao longo da encíclica, o Papa Leão aponta para “a grandeza da humanidade”, com homens e mulheres criados por Deus para uma relação com Ele e entre si, cooperando na obra criadora de Deus e guiados pelo Espírito Santo.
2. O documento tem cerca de 42 mil palavras
Incluindo as notas de rodapé, a encíclica tem aproximadamente o tamanho de uma novela.
Está organizada em cinco capítulos, entre uma introdução sólida e uma conclusão. O primeiro capítulo traça o desenvolvimento da doutrina social católica, ou ensino social da Igreja, sobretudo desde “Rerum Novarum”, a encíclica fundamental do Papa Leão XIII, de 1891, sobre a dignidade do trabalho.
O segundo capítulo aprofunda o conteúdo da doutrina social católica. O terceiro explora os desafios que a inteligência artificial apresenta à humanidade. O quarto centra-se na salvaguarda da verdade, do trabalho e da liberdade. O quinto capítulo foca-se nas implicações da IA na guerra.
3. “Magnifica Humanitas” aborda uma grande variedade de temas
A encíclica fala de educação, empregos, empresas tecnológicas privadas, famílias e muitos outros temas.
Também aborda a possibilidade de desemprego em massa, o futuro da educação, a proteção da liberdade humana, o tempo excessivo de ecrã entre os jovens, a dependência tecnológica, a propriedade dos dados, as criptomoedas, as desigualdades económicas, os impactos ambientais, o transumanismo e o pós-humanismo, os ciberataques e outras formas de guerra.
O Papa Leão aborda ainda a ideia de uma “IA moral” e argumenta que a base para o “alinhamento da IA com os valores humanos” exige uma discussão aberta sobre os enquadramentos éticos envolvidos, submetendo-os a padrões partilhados de justiça social, num diálogo que inclua todas as comunidades.
4. O documento refere vários pensadores influentes
Para além dos seus predecessores no papado, a carta menciona ou cita Dorothy Day, Maria Montessori, Martin Luther King Jr., J.R.R. Tolkien, Platão, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos e a pensadora humanista norte-americana Hannah Arendt, entre outros.
E, naturalmente, o Papa Leão integra no texto Santo Agostinho, patrono da ordem religiosa agostiniana à qual pertence e seu guia constante, especialmente através da importante obra do bispo africano do século V, “A Cidade de Deus”.
5. A encíclica usa imagens bíblicas
O texto convida as pessoas a refletirem sobre o que a humanidade está a construir no “estaleiro do nosso tempo”.
A Torre de Babel e a Cidade de Deus são contrastadas ao longo da encíclica para ilustrar os dois caminhos possíveis da era da IA: um caminho de arrogância, falsa autossuficiência e caos; ou um caminho rumo à comunhão, à relação e a Deus.
O Papa Leão sublinha a necessidade crítica de desenvolver um processo de discernimento para orientar o desenvolvimento da IA. “A tarefa de construir hoje deve colocar a nossa relação com Deus no centro”, escreve o Papa.
6. Apesar dos seus desafios, a IA não deve ser temida em si mesma
“A tecnologia não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica à humanidade”, escreve o Papa.
“Ao longo dos séculos, o desenvolvimento tecnológico melhorou significativamente as condições de vida da humanidade. Ao mesmo tempo, cada fase de progresso revelou também a ambiguidade de ferramentas que podem causar dano quando não são orientadas para o bem.”
O Papa dirige-se diretamente aos criadores de IA, dizendo-lhes que “a inovação tecnológica pode representar uma participação humana no ato divino da criação” e que, por isso, eles “têm uma responsabilidade ética e espiritual particular, pois cada escolha de conceção reflete uma visão da humanidade”.
7. Reservar tempo para o discernimento é essencial
A encíclica convida as pessoas de boa vontade a participar num “processo partilhado de discernimento para identificar as raízes espirituais e culturais das transformações em curso” relacionadas com a IA.
“Vivemos uma fase rápida de transição, uma ‘mudança de época’, na qual […] a maioria das pessoas observa e espera, olhando de longe e limitando-se a esperar pelo melhor”, escreve o Papa Leão.
“Precisamente por isso, impõem-se à nossa consciência perguntas cruciais que já não podem ser evitadas: Para onde vamos? Para que objetivo queremos orientar-nos? Que direção devemos escolher enquanto pessoas e enquanto comunidade humana?”
8. A encíclica explica os princípios da doutrina social católica
O Papa Leão apresenta os princípios centrais da doutrina social católica — a dignidade da pessoa, o bem comum, o destino universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça — e defende que devem servir como princípios orientadores para a IA.
“A Doutrina Social da Igreja é um legado de sabedoria, onde encontramos princípios para o pensamento, critérios para o discernimento e o julgamento, e orientações concretas para a ação”, escreve o Papa Leão.
“Fundada na Sagrada Escritura e na Tradição, e em diálogo com as ciências, ajuda-nos a interpretar claramente os desafios do presente e a identificar caminhos adequados para viver um testemunho cristão claro, com alegria e ao serviço do mundo. Não é um conjunto inerte de conceitos, mas um corpo vivo de verdade que salvaguarda e interpreta a vocação da humanidade para uma vida plena e justa.”
À medida que a IA avançou exponencialmente e se tornou parte da vida quotidiana, as pessoas de boa vontade devem “enfrentar os desafios do nosso tempo com clareza de pensamento e responsabilidade”, escreve o Papa.
9. As pessoas não podem ser reduzidas a máquinas
Os seres humanos não devem ser medidos apenas pela sua eficiência nem valorizados pela sua “otimização”.
A inteligência artificial “ameaça normalizar uma visão anti-humana”, escreve o Papa Leão.
“Nessa visão, a plenitude da vida é equiparada a ter mais, reduzir a fraqueza, eliminar a incerteza e exercer controlo total. Quando a eficiência se torna a medida suprema do valor, os seres humanos são tentados a ver-se como um projeto a otimizar, em vez de pessoas chamadas à relação e à comunhão.”
Pelo contrário, escreve o Papa, “a qualidade de uma civilização” mede-se “não pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que é capaz de oferecer, pela sua capacidade de reconhecer o outro como um rosto, e não apenas como uma função”.
10. O impacto da IA na guerra exige uma forte reflexão ética
O Papa Leão manifesta particular preocupação com a possibilidade de a IA, “desligada da ética e da responsabilidade, tornar as decisões sobre a vida e a morte mais rápidas e impessoais, apresentando o uso da força como uma opção imediata e viável”.
Ao pedir que os princípios da doutrina social católica sirvam como orientações para a tomada de decisões, o Papa condena “a propagação de uma cultura de poder caracterizada pela polarização e pela violência”.
Em vez disso, chama a humanidade à “civilização do amor”, que “não é uma utopia ingénua, mas um projeto exigente, que consiste em traduzir a caridade em estruturas de justiça, dar forma institucional à fraternidade e considerar os outros — sejam indivíduos ou povos — como aliados necessários para construir o bem comum”.
O Papa também apresenta critérios para o uso da IA na guerra.
11. “Magnifica Humanitas” é, na verdade, sobre relação
Ao longo da encíclica, o Papa Leão aponta para a relação da humanidade com Deus e com os outros.
Neste campo, sublinha a ação em vez da passividade e exorta as pessoas a trabalharem por “uma solidariedade desejada e escolhida”.
Escreve o Papa: “Este é o princípio orientador dos processos tecnológicos: não basta que a inteligência artificial nos torne mais eficientes ou mais conectados; ela deve também servir para construir uma família humana universal, com direitos e deveres partilhados, onde a proximidade digital se torne uma verdadeira oportunidade de encontro e cuidado mútuo.”
12. Seja qual for o futuro, o sentido da humanidade está enraizado em Jesus Cristo
A conclusão do documento inclui uma reflexão forte sobre a Encarnação através do “rosto do Filho de Deus, a grandeza da humanidade que ilumina também a era da IA”.
“Nenhum sistema computacional, por mais sofisticado que seja, pode criar um coração que se doa ou uma consciência que discerne o bem do mal. Mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, um rosto humano que pede para ser contemplado permanece no centro da nossa história”, escreve o Papa Leão.
“Este rosto humano é a plenitude para a qual a história caminha.”
13. A encíclica apela à conversão pessoal
O Papa propõe ao cristão “um programa de vida cristã sóbrio, mas exigente, com o qual podemos atravessar esta mudança de época à luz do Evangelho”.
Esse programa centra-se em “contemplar o plano de Deus”, receber a Eucaristia, “construir um mundo centrado no bem comum” e rezar em união com Maria.
O Papa encoraja as pessoas a cultivar a comunidade e as relações presenciais, educar os jovens para amarem a sabedoria, passar tempo com os pobres e os solitários, ser uma voz pela justiça, defender a verdade objetiva e tratar o mundo digital como “um novo continente a evangelizar”.
A sua reflexão final centra-se no Magnificat, o famoso cântico de Maria que glorifica Deus, narrado no primeiro capítulo do Evangelho de Lucas.
O Papa Leão escreve: “Na humilde fidelidade da vida quotidiana, até a era da IA pode tornar-se um tempo em que o Espírito Santo realiza a civilização do amor nas nossas vidas.”
[Maria Wiering é editora-chefe da OSV News. Contribuíram para esta notícia Courtney Mares, editora do Vaticano da OSV News, e Megan Marley, editora digital.]