«PARA, ESCUTA E OLHA… »

Era uma vez um jovem que ouviu dizer que uma velhinha que vivia na floresta guardava o segredo da felicidade. Decidiu, então, ir ter com ela e pedir-lhe que o ajudasse a ser feliz pois era rico, tinha uma vida muito ocupada, alcançara muito sucesso no seu trabalho, mas não se sentia satisfeito nem realizado. Então, a velhinha disse-lhe:

– Jovem, tens de parar, descansar e fazer silêncio. Vais acampar sozinho durante três dias no areal junto ao mar. Vivemos num tempo em que as pessoas se queixam de não terem tempo para nada e acham que parar é perder tempo. O mundo de hoje exige um ritmo acelerado e isso cria stresse, ansiedade e cansaço extremo. Parece que nos sentimos desconfortáveis quando não estamos a fazer alguma coisa e nos nossos momentos de pausa nem sempre conseguimos desligar, desconectar e parar verdadeiramente. O corpo humano tem limites e precisamos de repousar e relaxar para recarregar baterias. Às vezes é preciso parar e olhar para longe, para podermos perceber o que está próximo de nós e até dentro de nós mesmos. Temos de ser capazes de fazer stop, estacionar, refletir e optar por continuar o mesmo caminho ou mudar de direção. Não conseguiremos voltar atrás e alterar o início da nossa caminhada, mas está nas nossas mãos parar, meditar e recomeçar e, eventualmente, mudar o rumo.

O jovem foi e fez o que a velhinha lhe pedira. Depois, regressou e disse-lhe que tinha dormido mais tranquilamente do que nunca, que os seus passeios na praia lhe tinham feito muito bem e que se sentia sereno e em paz. Então, a velhinha sorriu e disse-lhe:

– Ainda bem. Agora, durante mais três dias, vais fazer uma caminhada por entre as montanhas e peço-te que estejas atento a todos os sons que consigas escutar. Ouvir remete-nos para o sentido da audição, para aquilo que os ouvidos captam. Mas o verbo escutar corresponde ao ato de ouvir com atenção, ou seja, escutar é entender o que está a ser captado, compreendendo e processando a informação internamente. Enquanto falar é algo normal e uma necessidade, escutar é uma verdadeira arte e nem todos a conseguem ter. Quem não souber escutar, não sabe falar. Escutar é uma realidade pouco frequente entre as pessoas e, na verdade, um autêntico ato de amor pois implica abrir-se e acolher os outros, sem julgamentos ou considerações, no que dizem e são. Seremos sábios se formos capazes de escutar, pois o silêncio é o começo e a condição da sabedoria. O silêncio, por vezes, incomoda-nos porque nos fala ao coração e permite que a nossa consciência nos diga algumas verdades… Vai lá.

Passados três dias, o jovem voltou a casa da velhinha e vinha deliciado pois conseguira escutar-se a si mesmo, bem como ao som do silêncio da montanha. Então, a velhinha abraçou-o e deu-lhe um terceiro e derradeiro desafio, dizendo-lhe:

– Agora vai para o bulício da cidade e olha a vida e as pessoas. Por vezes, estamos a ver algo, mas não conseguimos perceber o seu significado. Ver faz parte da nossa visão, é algo imediato, não exige a nossa vivência, nem provoca atitudes. Mas olhar é considerar e refletir o que se observou, interiorizando a sua existência em nós, numa experiência única e individual. O olhar é lento e analítico, traz sentimento, sensibilidade, requer atenção, minúcia, paciência, profundidade e contemplação. O olhar remete-nos para o nosso ser mais profundo e permite pôr-nos no lugar dos outros. Pensar é olhar as coisas e as pessoas com consciência e maturidade. O amor não se consegue ver com os olhos, mas é possível olhá-lo com o coração e o silêncio de um olhar pode ser mais belo e significativo do que muitas palavras. Os nossos olhos dizem o que somos e é pelo olhar que pedimos para entrar na alma do outro. Vai e olha bem.

O jovem foi e olhou as coisas e as pessoas de uma forma totalmente nova, encontrou-se a si mesmo, descobriu o sentido da existência e sentiu-se bem pela primeira vez. Então a velhinha disse-lhe que seguisse o seu caminho pois ele já não precisava de si e que lhe bastava amar e dar-se aos outros. Ele fora capaz de parar, escutar e olhar e conseguira perceber que o essencial da vida não se percebia com os sentidos nem se entendia com a inteligência. E o jovem foi embora levando o segredo da felicidade.

Fonte: Imissio (Paulo Costa)